sábado, 20 de fevereiro de 2010

À Procura de Eric: Mobilização dos Trabalhadores no Século XXI é Problematizada nas Entrelinhas de Loach


A “crítica” especializada viu um filme sobre fãs de futebol e não gostou. Os esquerdistas viram com frustração uma guinada incompreensível do cinema de Loach. O filme “À Procura de Eric” (“Looking For Eric”), 2009, entretanto, é muito mais.


O filme retrata a vida do carteiro Eric Bishop (Steve Evets) e problematiza questões sociais tão atuais para os trabalhadores quanto as retratadas nos antológicos “Terra e Liberdade” e “Pão e Rosas”. As classes trabalhadoras dos países centrais, desencantadas com problemas cotidianos, sem bandeiras de lutas capazes de aglutinar e mobilizar, têm nos heróis do esporte uma referência para motivar-se.


A história contada é a de Eric Bishop, mas os problemas envolvidos são os seus companheiros carteiros e os de boa parte das classes trabalhadoras dos países centrais e de países como o Brasil, cujo modelo de desenvolvimento adotado é o europeu.


Procurando motivação em meio a um trabalho repetitivo, a problemas familiares e de relacionamento insolúveis, Eric Bishop começa a ter alucinações com seu grande ídolo, o jogador de futebol Eric Cantona (representado pelo próprio jogador). Os “encontros” com o ídolo funcionam como meio de Bishop refletir sobre seus próprios problemas e buscar resolvê-los. Os paradigmas da auto-ajuda e da terapia em grupo para enfrentar os problemas do cotidiano são retratados no filme.


O problema central do filme se desenvolve quando Ryan (Gerard Kearns), um dos filhos de Bishop, se revela envolvido com um ex-detento que, por não poder portar armas, paga o adolescente para carregar a sua arma e protegê-lo. Ryan não pode se livrar do seu “patrão” sem colocar a si próprio e a família em risco de vida. Problemas da falta de perspectiva da juventude e da violência se põem diante de Eric Bishop, e a solução encontrada é a mobilização para intimidar o “gangster” e liberar seu filho do “emprego” perigoso sem que haja retaliação.


Com ajuda do seu amigo imaginário da fase adulta e dos companheiros de trabalho, Bishop leva adiante a “operação Cantona”, mobilizando torcedores para invadir a casa do “gangster”, humilhá-lo, ameaçá-lo e dissuadi-lo a não mexer mais com Ryan. A ameaça de colocar o vídeo da violência no Youtube mostra os meandros de como a violência é manejada no contexto “pós-moderno”.


A solução coletiva da mobilização e o velho problema do uso da violência são problematizados pelo filme de Loach num contexto renovado. O recurso às armas para a tomada do poder já não é um horizonte dos movimentos trabalhistas, mas a violência cotidiana dos subúrbios das cidades em todo o mundo, baseada também na exploração do trabalho, continua a oprimir jovens e trabalhadores.


Arrancando gargalhadas da platéia – esta sim uma novidade em Ken Loach – o filme traz à tona problemas cotidianos dos trabalhadores no século XXI e, nas entrelinhas, discute os desafios da mobilização num contexto sem grandes bandeiras de luta, mostrando em perspectiva os potenciais da coletividade diante daqueles problemas.

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